Gemini e eleições 2026: por que o TSE pediu explicações ao Google sobre respostas de IA?
O ministro deu prazo de 24 horas ao Google e pediu documentos à coligação que apresentou a reclamação. Entenda o que está em análise, o que diz a regra eleitoral e como conferir respostas de IA.

O que o TSE pediu ao Google
Em 13 de outubro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, pediu informações preliminares ao Google Brasil sobre relatos de respostas do Gemini e do Modo IA da Busca que teriam atribuído a Lula frases que ele não disse, em assuntos ligados a crime organizado e terrorismo. A reclamação foi apresentada pela coligação Brasil Pronto para Mais, ligada à campanha do presidente.
No despacho inicial, o ministro também deu prazo de 24 horas para a coligação juntar documentos que faltavam na petição. Ao Google, pediu informações preliminares sobre o caso. O relato foi publicado pelo UOL em 13 de outubro. Essa etapa serve para reunir elementos: não é uma decisão de mérito nem confirma que houve irregularidade ou intenção política por parte da empresa.
O TSE pediu esclarecimentos e documentos. O despacho, por si só, não comprova que a alegação seja verdadeira.
Por que uma resposta de IA pode parecer certa e ainda estar errada
Gemini e Modo IA são produtos diferentes, mas os dois podem gerar respostas em linguagem natural. Uma frase bem organizada, ou até apresentada entre aspas, pode dar a impressão de ser uma citação conferida. Isso não garante que a ferramenta encontrou a fonte certa, entendeu o contexto ou reproduziu as palavras originais.
O próprio Google informa que o Gemini pode produzir respostas incorretas ou enganosas. A central de ajuda da Busca também alerta que o Modo IA pode interpretar mal o conteúdo encontrado na web. Essas limitações explicam por que é preciso conferir a resposta; não demonstram, sozinhas, o que aconteceu nesta reclamação nem indicam favorecimento deliberado a um candidato.
Para avaliar um caso concreto, fazem diferença detalhes como qual ferramenta foi usada, a pergunta exata, a data, a resposta completa e as fontes exibidas. Uma captura isolada pode iniciar a apuração, mas não esclarece por si só como a resposta foi produzida ou se o resultado se repete.
Uma resposta de IA não é prova do que uma pessoa candidata disse. A confirmação precisa vir da fonte original.
O que as regras eleitorais dizem sobre sistemas de IA
A Resolução TSE nº 23.755, de 2026, atualizou as regras de propaganda eleitoral. Ela proíbe provedores que oferecem sistemas de inteligência artificial de ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidaturas e campanhas. Também veda que esses sistemas indiquem preferência eleitoral ou favoreçam ou desfavoreçam candidaturas, inclusive por respostas automatizadas.
Em setembro, o TSE informou que o Google apresentou um plano de conformidade para as eleições, com medidas relacionadas à Busca, ao YouTube e ao Gemini. Esse plano descreve ações anunciadas pela empresa; não decide a reclamação atual nem substitui a análise das respostas apontadas no processo.
A pergunta jurídica neste caso depende dos registros e das explicações que forem apresentados. Uma resposta incorreta pode exigir correção e investigação, mas não permite concluir automaticamente que houve recomendação eleitoral ou violação da regra.
Como conferir uma informação eleitoral gerada por IA
Se uma ferramenta atribuir uma frase a um candidato, vale fazer uma checagem rápida antes de compartilhar:
- Procure a gravação, o documento ou a publicação original e compare a frase completa, sem retirar o contexto.
- Confira a data e o local da fala. Uma declaração antiga ou sobre outro assunto pode aparecer em uma resposta fora de contexto.
- Abra as fontes indicadas pela ferramenta. Se não houver fonte verificável, pesquise a frase em veículos jornalísticos e canais oficiais.
- Não use outra resposta da mesma IA como confirmação independente. Compare com a fonte original e com mais de uma apuração confiável.
- Ao publicar uma captura, informe qual ferramenta e pergunta foram usadas e deixe claro quando algo ainda é uma alegação.
O caso mostra um risco importante para o período eleitoral: uma resposta gerada pode circular como se fosse uma citação real. Ele não mede quantas pessoas viram o conteúdo nem prova que respostas de IA mudaram votos. Os próximos dados relevantes são as informações do Google, os documentos complementares da coligação e os eventuais despachos do processo.
